quarta-feira, 11 de junho de 2014

O BANQUETE DO CORDEIRO

Resumo de O BANQUETE DO CORDEIRO, de Scott Hahn


"Só é possível compreender a Missa através do Apocalipse. E só é possível compreender o Apocalipse através da Missa."



PARTE 1 - O DOM DA MISSA
- Cristo bate à porta
- O que Scott Hahn viu na sua primeira Missa
- História do sacrifício no AT
- A Missa para os primeiros cristãos
- Entendendo as partes da Missa

PARTE 2 - A REVELAÇÃO DO CÉU
- "Voltei-me para trás e vi..."
- Quem é quem no paraíso
- Armagedom
- O Dia do Juízo: Sua misericórdia faz tremer

PARTE 3 - A REVELAÇÃO PARA O POVO
- Levantando o véu da noiva: como ver o invisível
- O combate da fé: fight or flight?
- Apocalipse como um álbum de família
- O rito tem poder: a diferença que a Missa faz

lllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll

PARTE 1 - O DOM DA MISSA

- Como disse João Paulo II, a Missa é o céu na terra. Essa supressão do espaço-tempo fica óbvia no início da Liturgia Eucarística, quando o sacerdote diz "corações ao alto" e a assembléia canta o "Santo, Santo Santo" unida à multidão de anjos e de toda a beatitude celeste.

- Existe uma relação estreita entre o Fim do Mundo e o Apocalipse, o Apocalipse e a Missa, a Missa e a Segunda Vinda de Cristo, a Segunda Vinda de Cristo e as atribulações da vida do cristão, enfim, entre a vida diária do cristão e o Banquete do Cordeiro.

- A Missa não é inteiramente conduzida por nós. Nós homens tomamos parte de uma liturgia celeste. Na Missa, céu e terra se encontram.

- Cristo é o sacerdote verdadeiro, da ordem de Melquisedec. Cristo é o sumo-sacerdote, a vítima, o altar e Deus.

- A Missa é o evento mais importante de que um católico pode participar, mais do que se encontrar pessoalmente com o Papa.
- São João é o único evangelista que chama Jesus de "Cordeiro de Deus". Os outros títulos messiânicos de Jesus destoam desse título tipicamente joanino: Leão de Judá, Rei, Deus, Salvador, Messias, Sacerdote, Profeta, todos magnificentes.

- Isaac é uma figura Christi, uma sombra de Cristo no Antigo Testamento. Filho único, Jesus carrega o lenho nos ombros subindo o monte para ser sacrificado. De fato, o primeiro versículo do primeiro Evangelho, Mt 1, 1, abre assim: Jesus Cristo, filho de Abraão.

- Com a construção do Templo de Jerusalém, por volta de 960 a.C., Israel oferecia diariamente sacrifícios a Deus. Todo dia, os sacerdotes ofereciam dois cordeiros, um pela manhã e outro pela tarde, para expiação dos pecados do povo. Havia ainda oferendas privadas.

- O Templo fora construído onde Melquisedec oferecia pão e vinho, onde Abraão oferecera seu filho Isaac, onde Deus prometera ao povo um Salvador davídico. Finalmente, no Templo eram feitos sacrifícios idênticos ao de Abel: o sacrifício do cordeiro.

- Quando Jesus estava diante de Pilatos, o evangelho de São João acrescenta esta nota: "era o dia de preparação da Páscoa. Era aproximadamente a sexta hora" (Jo 19,14). A sexta hora era quando os sacerdotes estavam começando a esfolar os cordeiros pascais.

- O Evangelho diz que nenhum dos ossos de Jesus foram quebrados para que fosse cumprida a Sagrada Escritura (Jo 19,36). Exôdo 12, 46, diz que o cordeiro pascal não deve ter os ossos quebrados. Além disso, a esponja no ramo de hissopo era prescrita na Lei para espalhar o sangue do cordeiro salvador (Ex 12, 22).

-Às vésperas de o Templo de Jerusalém ser destruído pelo Imperador Romano, por volta do ano 70d.C., os judeus sacrificaram milhares e milhares de animais. Aquele culto havia se convertido num automatismo sem sentido. Nem todo o sangue derramado do mundo poderia apagar os pecados da humanidade. Era necessário um "sacrifício perfeito", como diz a Oração Eucarística, ou seja, o sacrifício de um Santo, Santo, Santo: o sacrifício do próprio Deus.

- À luz do Antigo Testamento, portanto, as fórmulas da Missa adquirem sentido pleno. "Senhor, nós te oferecemos o corpo e o sangue do Teu Filho, o sacrifício aceitável que traz a salvação para o mundo inteiro. Senhor, olhai com bondade para o sacrifício que entregaste à Tua Igreja... (Oração Eucarística IV). Na Oração Eucarística I, esse aspecto fica ainda mais evidente.

- Por alguma razão misteriosa, Cristo não quis encerrar a sua Páscoa num momento historicamente datado. Ele quer que nós hoje tomemos parte na Nova Aliança. Para renovar a Aliança com Deus, o cristão deve literalmente comer a carne do cordeiro pascal - cordeiro que é o pão ázimo da eucaristia. Percebe como a Antiga e a Nova Aliança se fundem?

- Mahatma Gandhi tem uma frase ótima: "worship without sacrifice is an absurdity of the modern age".

- O sacrifício é uma necessidade do coração humano. Mas antes de Jesus nenhum sacrifício era suficiente. Diz o Salmo 116: "Como poderei retribuir ao Senhor por todo o bem que Ele me fez? Levantarei o cálice da salvação e invocarei seu santo nome". Como poderei retribuir? Indo à Missa.

- O capítulo 11 da 1ª Carta de São Paulo aos Coríntios é um breve tratado sobre o tema. Lá o Apóstolo diz expressamente "aquilo que recebi vos transmito", ou seja, a tradição da ceia passada de geração a geração; os elementos eucarísticos do pão e do vinho, que são em verdade corpo e sangue; a ordem pessoal e direta de Jesus para celebrarmos esse mistério; a expressão "até que Ele venha", ou seja, o sentido escatológico da Missa.

- O ancestral litúrgico da Missa é o TODAH hebraico. A palavra significa "ação de graças", tal como a palavra grega Eucaristia. O sentido social é o banquete sacrificial compartilhado com amigos para celebrar e agradecer a Deus. O TODAH começa relembrando um risco iminente de morte e então celebra a ação libertadora/salvífica de Deus que livrou o homem da morte. Um exemplo é o Salmo 69. Outro exemplo clássico é o Salmo 22, que Jesus cita na cruz: começa com um choro de lamentação à beira da morte e se encerra com uma nota triunfante da salvação divina. Tanto o TODAH quanto a Eucaristia expressam seu culto em palavra e em refeição, ambos incluem o sacrifício incruento de pão e vinho.

- Sem querer, os rabinos antigos fizeram uma previsão profética "Nos tempos messiânicos, todos os sacrifícios cessarão, salvo o todah. O todah jamais cessará, porque ele é eterno." (Pesikta Rabbati, I, p. 159).

- Vale a pena ver de novo o final do capítulo 3, onde o autor expõe como a Missa na Patrística já tinha a mesma estrutura de hoje. Santo Inácio de Antioquia, São Justino Mártir e Santo Hipólito de Roma são referências de leitura obrigatória.

ENTENDENDO AS PARTES DA MISSA

          É um erro pensar que a oração deve ser puramente espontânea, livre, criativa. Desde o cristianismo primitivo já existia na Igreja uma lex orandi. A Sagrada Escritura conduz a uma Liturgia, a qual conduz a "the good sense of order".

             As fórmulas e as rotinas não são coisas más. As fórmulas de cumprimento, agradecimento, despedida são parte essencial dos relacionamentos humanos. Todos ensinam seus filhos a dizer "obrigado". Nenhuma esposa se cansa do "bom dia, meu amor". Com efeito, o amor verdadeiro implica rotina e constância.

* sinal da cruz

- Há registros de que os Padres da Igreja já faziam o sinal da cruz, o qual tem o poder de bloquear toda bruxaria porque Satanás é impotente diante da cruz de Nosso Senhor.
- O sinal da cruz resume o Credo num gesto. Proclamamos a fé trinitária na qual fomos batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, renovando com esse gesto a aliança do Batismo. 

- Professamos que a nossa redenção está na cruz de Nosso Senhor. Assim o maior pecado da história se torna o mais misericordioso ato de amor e revelador do infinito poder divino. Pela cruz participamos da natureza divina (2Pe 1,4).

- O sinal da cruz resume pois os mistérios da Trindade, Encarnação e Redenção. No Oriente, é feito com o polegar preso ao mindinho, simbolizando ainda a dupla natureza de Cristo divino e humano.

- A renovação do juramento do Batismo remete à noção de testemunho. O cristão é chamado a testemunhar sua fé, a combater o bom combate com a armadura de Efésios 6. Assim, o sinal da cruz é como a promessa que uma testemunha faz diante do tribunal com a mão sobre a Bíblia. Porque não somos espectadores da Missa, mas sim partícipes e testemunhas. Somos chamados a dizer a verdade a respeito da fé apostólica, até ao martírio de cruz se preciso.


* ato penitencial
- Se estamos diante de um tribunal, quem está sendo julgado? Nós mesmos! E quem me acusa? Eu mesmo!

- A Didache já estabelecia que a confissão dos pecados devia preceder a nossa participação na Eucaristia.

- Ninguém está isento de pecado (1Jo 1,9 e Prov 24,16).

- No Kyrie, suplicamos misericórdia. Isso resume bem o que a Missa é: a misericórdia de Deus. 

- A fórmula do Kyrie é bíblica (Sl 6,2 e Mt 15, 22).

* glória
- O Glória inicia com outra fórmula bíblica, aquela da noite de Natal. Os versos seguintes ecoam os louvores angélicos de Ap 15, 3-4.

- No Glória, testemunhamos o poder de Deus. A oração cristã não deve apenas pedir e agradecer, mas também louvar e exaltar a Deus.

* leituras

- Um católico que vai diariamente à Missa terá lido a Bíblia inteira em três anos, pois o calendário litúrgico está planejado para esse fim.

- Por isso, o Lecionário é um excelente antídoto contra a tendência protestante de ler apenas os livros preferidos da Bíblia.

- Aliás, o fato histórico é que a Bíblia nasceu na Missa. Como assim? O cânon do NT foi uma forma de restringir quais livros poderiam compor e ser lidos durante a Liturgia. A Missa é pois o "habitat natural" da Bíblia. Observe que São Paulo diz que a fé vem pelo ouvido (Rm 10,17), e não pela leitura. Até porque no cristianismo primitivo não existia indústria gráfica (a imprensa só foi inventada quinze séculos depois). Ademais, era caríssimo comprar a cópia de um manuscrito na Antiguidade. Além disso, havia poucas pessoas alfabetizadas. Por acaso a fé dos primeiros cristãos era inconsistente porque não liam a Bíblia?

- Jesus está presente na Palavra como está presente na Eucaristia (Dei Verbum 21).

- Assim como o Verbo está presente na hóstia insossa, o Espírito Santo opera em nós através de uma homilia aparentemente "sem graça".

* credo

- Eis os dogmas pelos quais os primeiros cristãos sofreram prisão e morte no Império Romano! Precisa dizer mais alguma coisa?

- A respeito daqueles artigos da fé os cristãos também derramaram sangue em guerras fratricidas: muitas heresias ameaçaram a fé trinitária, a dupla natureza de Cristo e outros pontos inegociáveis definidos em Nicéia (325) e Constantinopla (381).

- As Igrejas orientais cantam o Credo, não o recitam mecanicamente, porque o Credo traz a Boa-Nova evangélica que é a razão da nossa alegria!

* ofertório

- Neste ponto, podemos abrir uma digressão: Os adventistas acusam os católicos de negligenciarem o Antigo Testamento. Mas onde estão no culto protestante o sacrifício, a oferenda, os perfumes do Levítico? Ora, somente a Igreja Católica preserva a integralidade do culto bíblico do Pentateuco ao Apocalipse, como veremos adiante.

- Nas igrejas orientais, os católicos se reúnem durante a semana para fabricar o vinho e produzir o pão comunitários. O gesto é lindo e significa que nós oferecemos eclesialmente o que somos e o que temos. Deus pode receber o que é temporal e transformar em eterno, o que é humano e transformar em divino. Entrega, irmão, todo o ser na Missa, oferece as tuas angústias, mas também os teus talentos, o teu pecado e a tua esperança, enfim todo o teu ser deve ser oferecido ao Senhor na mesa eucarística (Lumen Gentium 34). Tudo o que temos é levado ao altar para ser santificado em Cristo!

- Por isso, o sacerdote mistura o vinho e a água. Simboliza as duas naturezas de Jesus, divina e humana, misturadas. Assim o mistério da Encarnação perdura em nós que somos igreja, corpo místico de Cristo - igreja unida a Ele como os dois líquidos que jorraram de Seu lado aberto. 

- O Pai não recusa essa oferta.

* corações ao alto

- Este é o verdadeiro sentido do "arrebatamento" de Ap 1:10, cuja interpretação causa polêmica entre os protestantes. A visão mística de São João é detalhada em Ap 4, 1-2. Que arrebatamento é este? O versículo Ap 1:10 é a única vez em toda a Bíblia que se chama o primeiro dia da semana de Dia do Senhor: HE KYRIAKÉ HEMERA. O autor do Apocalipse estava celebrando uma Missa no domingo.

- Vai começar a Liturgia Eucarística... São João está vendo anjos por toda parte! Tem anjos voando neste lugar, no meio do Povo, em cima do altar, subindo e descendo em todas as direções. Não sei se a Igreja subiu ou se o Céu desceu... só sei que está cheia dos anjos de Deus porque o próprio Deus está aqui...

- Em Ap 4,8 canta-se o SANTO, SANTO, SANTO (Trisagion, no Oriente).

- A Oração Eucarística evidencia que a Nova Aliança não é um livro; é uma AÇÃO. É a ação eucarística. Isso é um absurdo? Só se for absurdo bíblico, pois Jesus diz "fazei isto em memória de mim" (1 Cor, 11). Ele não disse "escrevam isto" ou "leiam isto", mas "fazei".

- Aliás, nada mais bíblico do que a narrativa da instituição da eucaristia em Lucas 22. E 1Cor 11 não deixa dúvidas de que os primeiros cristãos repetiam esse ritual da "ceia do Senhor", que era uma ordem dada pelo próprio Jesus, como Ele insistiu duramente na Sinagoga de Cafarnaum.

- A Igreja Católica leva a sério o discurso de Cafarnaum. Se ali o Senhor estivesse falando em metáforas, poderia ter explicado de outras formas, como fazia com as parábolas em que explicava o que significa a "semente", os "espinhos", o "dono da vinícola" etc. Ao contrário, o Senhor insiste no sentido literal daquelas palavras e interpela os discípulos se eles também querem ir embora diante da dureza do seu ensinamento. Ora, ninguém quer ser mal-entendido na hora da morte. Na angústia da morte, na hora extrema, as pessoas falam a sério. Até hoje os exegetas e filólogos não conseguem aceitar que Sócrates estivesse realmente se referindo à dívida de um galo na hora da morte.

- É plenamente bíblico crer na presença real de Cristo na Eucaristia. É a atitude mais bíblica a fazer!

- Deus quer que a Sua Aliança seja recordada, isto é, renovada. Como os hebreus têm suas festas e um calendário litúrgico para re-lembrar as ações salvíficas de Deus na história de Israel, a Missa é a renovação da Nova Aliança. Por ordem de Jesus: "fazei isto em memória de mim". E São Paulo agrega: "até que Ele venha".

- A memória da Nova Aliança não é imaginativa. É concreta, sensível, palpável. É literalmente "carne". Ao entrar numa Missa liturgicamente bem preparada, nos ajoelhamos e nos curvamos, cantamos, ouvimos o sino, inalamos o incenso, vemos o cálice da salvação levantado, pegamos e provamos o Senhor vivo. "Now I know why God gave me a body: to whorship Him". Agora eu sei porque Deus me deu um corpo de presente: para dar glória a Ele no culto com seu Povo.

* amén

- São Jerônimo conta que, na Roma do século IV, os templos pagãos tremiam quando os cristãos pronunciavam "O Grande Amém".

* Pai Nosso

- A liturgia é um encontro de família.

- Tanto o Pai-Nosso quanto a Missa pleiteiam o céu na terra.

- Se renovamos as promessas do Batismo, somos "crianças" nascidas de novo, então podemos chamar o Ser Supremo com essa intimidade... "Pai Nosso", Abba.

- Existe uma conexão estreita entre o maná do AT e o pão da Eucaristia. Na oração do Pai Nosso pedimos esse "pão nosso de cada dia" que é o maná eucarístico.

* rito da comunhão

- A igreja é o corpo místico de Cristo. Nele somos um. Essa koinonía é expressa no abraço da paz.

- O abraço da paz é um gesto que simboliza o mandamento de Jesus: "Reconcilia-te com o teu irmão primeiro antes de se aproximar do altar" (Mt 5, 24).

- O AGNUS DEI QUI TOLLIS PECCATA MUNDI rememora: a Páscoa do Êxodo; a Misericórdia de Deus; a profecia de João Batista no Jordão; a Paz da redenção.

- Em seguida, pronunciamos as palavras do centurião romano: "Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra..." (Mt 8,8).

- Enfim, recebemos Aquele que louvamos no Glória e professamos no Credo, Aquele que é a Salvação esperada desde o princípio e que virá no futuro para julgar os vivos e os mortos e o Seu reino não terá fim.

* ritos finais

- O nome antigo é Divina Liturgia. O termo Missa vem da expressão latina com que o sacerdote despede os fiéis: "Ite, missa est". Literalmente, se trata de um envio, de uma missão. Em inglês, not a dismissal, but a commissioning.

           Deixamos a Missa para experimentar na vida ordinária o mistério de sacrifício que acabamos de celebrar.

                        llllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll

 
PARTE 2 - REVELAÇÃO DO CÉU









quinta-feira, 5 de junho de 2014

DEBATE ENTRE UM CATÓLICO E UM ADVENTISTA

1
- Quer dizer, irmão White, que Jesus Cristo não acrescentou nada de novo ao Antigo Testamento?

- Sim, tudo já estava contido no Antigo Testamento.

- Ué... Como explicar então Suas próprias palavras: "eis que vos dou um NOVO MANDAMENTO"? Ou quando Jesus diz: "Ouvistes que foi dito: Amarás teu próximo e odiarás teu inimigo. EU PORÉM VOS DIGO...". Caro amigo, Jesus foi crucificado pelos doutores da Lei por causa desse PORÉM.

2
- A Igreja Católica adotou os 7 livros apócrifos porque se coadunavam melhor com a sua ideologia.

- Veja bem, White. Os autores do Novo Testamento se referem às Sagradas Escrituras sempre na versão grega. Por isso, nós católicos adotamos a Septuaginta e não a versão hebraica. Ora, a Septuaginta, que aliás você acabou de reconhecer como autêntica, contém os 7 livros apócrifos que você contraditoriamente quer rejeitar.

- Ai, ai, Tomás... [rindo]

- E mais. Você é um protestante de araque. Lutero não rejeitava esses livros, apenas sua Bíblia os publicava em separado - uma atitude até certo ponto consoante com o magistério da Igreja que chama esses livros de deuterocanônicos. Para sua informação, as Bíblias protestantes publicadas até o século XIX traziam esses livros.

- Eu já te falei que o adventista não é um protestante. As igrejas protestantes são todas filhas da Católica.

- Ah, claro. Vocês são especiais. Todos os demais cristãos são corrompidos. A história do cristianismo começou do zero com a seita adventista.

3
- Se você é adepto do SOLA SCRIPTURA, por que não toma vinho? Jesus tomava vinho segundo a Bíblia.

- Ah, fala sério. O vinho daquela época não era fermentado, portanto não era alcóolico.

- De onde você tirou isso? De que versículo da Escritura?

- Isso não é Escritura. Você tem que estudar História para saber que o vinho daquela época não era como o de hoje.

- Por acaso, eu conheço essa passagem no original grego. E a Escritura usa o termo "oinos", que significa simplesmente vinho, o mesmo vinho dos banquetes da Hélade. A mesma palavra grega usada para denominar a bebida usada nos cultos orgiásticos de Dioniso. Se a Bíblia quisesse fazer alguma distinção, teria certamente usado outra palavra para não confundir os primeiros cristãos que habitavam o universo cultural grego do Mediterrâneo. Mas não o fez. Aliás, para seu governo, consultei o melhor dicionário de grego antigo, o Liddel and Scott, e acabei de descobrir que "oinos" significa também "fermented drink of other kinds", ou seja, uma bebida fermentada de outra fruta, como pêssego.

4
- O sábado deve ser santificado porque assim está no Antigo Testamento.

- Mas Jesus ressuscitou no domingo.

- Vocês católicos dão importância exagerada à Ressurreição!

- Mas é São Paulo quem diz na Escritura: "Se Cristo não ressuscitou vazia é a nossa fé". Ele quis dizer com isso que a Ressurreição é a essência do cristianismo.

- Não. Você tem que interpretar essa passagem na Bíblia como um todo. A Ressurreição não é mais importante do que o nascimento ou a morte de Jesus, porque sem esses eventos Ele não teria ressuscitado.

- Mas, White, nascer e morrer acontece com qualquer um. Ressucitar, só Cristo ressuscitou.

- Por que vocês não dão importância à assunção ao céu? De nada adiantaria ter ressuscitado, se Ele não tivesse ascendido ao céu. Você sabe por que Ele está agora no seio do Pai?

- Não, não sei. Eu não tenho resposta pra tudo, como você. Sou bem mais ignorante... Mas o que chama minha atenção é o seguinte: segundo a sua lógica, o nascimento e a morte são mais importantes porque se Ele não morresse não poderia ressuscitar. Então a Ressurreição é mais importante do que a assunção, porque veio antes.

- Mais uma vez nós interpretamos a Bíblia como um todo, e não uma parte dela isolada. O Apocalipse enfatiza a importância da escatologia.

- Eu também prefiro interpretar a Bíblia como um todo, e não escolher as partes que me interessam em cada ocasião. Mas é preciso lembrar que a Carta de São Pedro diz: com a Ressurreição de Cristo Deus nos deu uma "esperança viva". A Ressurreição é a razão da nossa esperança.

5
- A Igreja Católica escolheu o domingo porque era um dia pagão, dia do culto ao deus Sol.

- Não foi por isso. Foi por causa da Ressurreição. É o dia do Senhor, HE KURIAKÉ HEMÉRA.

- Ai, ai, Tomás [riso amarelo]

- Eu deveria ter percebido antes que você fica sem graça sempre que é pego de surpresa na sua ignorância.

- Olhe, estamos discutindo aqui na mesa de um restaurante. Mas quando eu doutrino os meus jovens eu tenho documentos na mão. Pra você ficar sabendo, eu tenho documento assinado pelo Papa provando tudo isso que estou dizendo. O culto do deus sol está no Catecismo da Igreja Católica.

- Duvido. Me mostra então.

- Ai, ai, ai. Eu conheço a Igreja Católica melhor do que você conhece a teologia adventista.

- Deve ser mesmo.

6
- A Igreja Católica é a besta do Apocalipse. E a fera são os Estados Unidos.

- Você tem idéia de quantos movimentos heréticos já surgiram afirmando a iminência do Juízo Final e todos deram com os burros n'água? O próprio Cristo diz que a data do Juízo pertence exclusivamente ao Pai, e não cabe a nós especular.

- Mas nós defendemos que pode acontecer a qualquer momento ou daqui a 1.000 anos. Tanto faz.

- E você acha que daqui a 1.000 ainda vai existir Estados Unidos da América? Cada século teve a sua grande potência, no século XIX foi a Inglaterra, antes foi a França e assim por diante.

- A gente acredita numa profecia.

- Eu acho que a profecia de vocês está atrasada. Os EUA estão em crise. A potência do momento é a China.


7
- Você não acha, White, que é muita pretensão ser o portador da doutrina cristã correta?

- Ora, Tomás, não se faça de bobo. A Igreja Católica também faz isso. Desse ponto de vista, estamos quites, meu caro.

- É... mas a Igreja Católica tem dois mil anos de história. Se ela não fosse animada pelo Espírito Santo, já teria sucumbido. Muitas seitas já surgiram e desapareceram, e a Igreja Católica continua aí viva contra todas as profecias.

- Nós ainda vamos provar que estamos certos. A Igreja Adventista é baseada numa profecia, por isso só podemos provar no futuro.

8
- Só de você usar a palavra domingo já está sendo católico. Domingo significa "dies domini": dia do Senhor. Você é católico e não sabe.

- Ê laiá...

9
- Esse primado de Pedro sobre os outros não existe na Bíblia.

- Existe sim. "Tu és Pedro e sobre essa pedra edificarei minha igreja".

- Ai, ai. "Petrus" quer dizer pedregulho, e não pedra.

- Então quer dizer que você cita a Bíblia em latim, na tradução católica de São Jerônimo?

- Jesus quis dizer com essa frase que Ele mesmo, Jesus, era a pedra de que estava falando.

- Você é alfabetizado? Mas tudo bem. Sua interpretação é ainda mais católica do que a minha. O que você está dizendo é que a igreja de Pedro é a igreja de Cristo.

10
- Celebrar a Eucaristia é a maior blasfêmia que pode existir. É matar Jesus de novo.

- Em primeiro lugar, não pode ser "de novo" porque, segundo a teologia católica, se trata do mesmíssimo sacrifício. Não é outro; é o mesmo. A Missa está fora do espaço e do tempo, é espiritual.

- Ai, ai, ai. Essa é boa...

- Mas o que estamos dizendo? Ora, foi Ele mesmo quem mandou: FAZEI ISSO EM MEMÓRIA DE MIM.

- Sei.


domingo, 1 de junho de 2014

O Céu e a Terra

         Existe uma relação misteriosa entre a ordem da alma e a ordem política - eis o núcleo das investigações filosóficas desde a Antiga Grécia até hoje. 
             
          Vivemos numa cultura dominada pela experiência da desordem. Estamos rodeados de estadistas e militantes que desejam alucinadamente debelar o mal e implantar uma ordem a ferro e fogo. O século XX mostrou que o projeto político de pôr fim às injustiças e instaurar o paraíso na Terra acaba transformando a vida humana num inferno.

               A revolta do homem moderno consiste na rebeldia diante de Deus. Na sua forma mais extrema oculta algo de diabólico, podendo manifestar-se na recusa da Cruz e na inveja do Cristo.

            O projeto de instaurar o Paraíso na Terra é a adaptação política desastrada de uma idéia cuja raiz é puramente teológica. Vamos à origem do termo. A Igreja Católica diz que a celebração da Missa é o encontro do Céu com a Terra, onde os fiéis cantam "unidos à multidão de anjos e santos", naquele momento em que o sacerdote pronuncia as palavras "corações ao alto" e a assembléia responde "o nosso coração está em Deus". Mas um católico genuíno se contenta com viver essa experiência do "Céu na Terra" durante uma hora a cada domingo.

           Na liturgia de hoje, leu-se o livro dos Atos dos Apóstolos 1, 6-8, em que os apóstolos interrogam o Cristo que acabara de ressuscitar: - Senhor, é porventura agora que ides instaurar o Reino em Israel? Respondeu-lhes Ele: - Não vos pertence saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em seu poder, mas descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria até os confins do mundo".

              A pergunta dos apóstolos encerra a expectativa messiânica do povo judeu de libertação contra o jugo romano. Trata-se de uma preocupação legítima do povo oprimido que esperava o Salvador de dinastia davídica. Jesus se compadece do sofrimento de seu povo, mas não veio aqui instaurar um domínio político. De fato, responde a Pilatos: "O meu Reino não é deste mundo. Se o meu Reino fosse deste mundo, os meus soldados certamente teriam lutado para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu Reino não é deste mundo." (Jo 18, 36).

               A resposta de Cristo nos Atos dos Apóstolos é misteriosa: não nos é dado conhecer a data do Juízo Final. O Pai reservou para si esse segredo e não nos cabe especular sobre ele - nos versículos seguintes, os anjos repreendem os discípulos porque estes ficam embasbacados olhando para as nuvens enquanto Jesus ascende aos Céus envolto em glória. Quanto a nós, compete continuar a caminhada na História, acompanhados pela presença do Espírito Santo. Naquele trecho bíblico, o Filho retorna para o seio do Pai, mas garante que estará com seus seguidores até o fim dos tempos por meio do Espírito Santo que anima a Igreja, o Paráclito, o Espírito Defensor que consolará os fiéis nas horas de sofrimento.

          Em suma a vida do cristão é atravessar na fé o mar da História, uma mistura de ordem e desordem. O lago de Tiberíades ambienta essa experiência das tribulações: as águas revoltas sacodem a barca de Pedro, enquanto Jesus dorme aparentemente indiferente à aflição de seus amigos. Cumpre vigiar e orar. E a oração que Jesus ensinou diz "seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu". Para o cristão o Céu na Terra é fazer a vontade de Deus, e a vontade de Deus está resumida no Sermão da Montanha.

           Mas acontece que o ser humano está gravado com o pecado original, que é uma expressão simbólica para dizer "egoísmo" e "satisfação de suas próprias ambições". A tentativa de reformar a natureza humana resulta numa desordem monstruosa, sendo o comunismo apenas a projeção imanente da Jerusalém Celeste - a união beatífica dos santos de Deus.

             Infelizmente jamais existirá uma sociedade perfeita, livre da exploração do homem pelo homem. Não significa que devemos deixar o mundo como aí está. Vamos, sim, em busca da ordem.